CARACTERISTICAS MORFO-FUNCIONAIS DO CAMPOLINA DE PASSEIO
De acordo com o tipo de performance, o cavalo deve apresentar um biótipo funcional. Vejamos alguns exemplos clássicos:
Quarto de Milha – Tronco compacto, membros anteriores curtos e posteriores longos, musculatura robusta e bem distribuída, para facilitar a potência na arrancada e no esbarro, nas corridas de curta distância ( um quarto de milha ), vaquejadas, provas de rédeas, provas de maneabilidade.
Puro Sangue Inglês – Tronco longelineo, esguio, pernas longas, para favorecer as grandes velocidades.
Raças de tração – Tronco brevelineo, ossatura volumosa, musculatura volumosa e possante, para favorecer a força na atrelagem e outros serviços de tração.
Raças de Passeio – Proporções e angulações que favoreçam a qualidade da marcha de tríplices apoios, estrutura óssea muscular forte, mas sem exageros de volumes, o que pode prejudicar a suavidade dos deslocamentos e o equilíbrio da marcha de tríplices apoios.
Cascos - Qualquer que seja o tipo de função, os cascos representam a região mais importante do cavalo atleta, sendo a base da sustentação. Os cascos dos membros anteriores têm formato arredondado, para facilitar a função principal de apoio. Do peso total do cavalo, em torno de 65% é apoiado sobre os cascos anteriores. Os cascos dos membros posteriores são mais estreitos e têm formato pontudo, para facilitar a função principal da força de impulsão.
Os cascos devem apresentar tamanho proporcional ao porte do cavalo. Quanto menor o casco, menor a área de suporte. Cascos pequenos em um cavalo de grande porte e de forte massa muscular, favorecem as afecções e os desequilíbrios dinâmicos. Ao contrário, cascos de tamanho excessivo, mesmo que em animais de grande porte, tornam os deslocamentos menos elásticos e suaves.
Cada região do casco tem uma conformação especifica, de acordo com a função desempenhada.
Ranilha - É uma estrutura elástica, em forma de um V, ampla, de altura não superior à dos talões. Ela exerce função nos processos de expansão e contração do casco, estimulando o fluxo sanguineo e de fluidos que “lubrificam” as estruturas ósseas da 1a falange. Deve ser larga e bem desenvolvida. É um erro grosseiro de casqueamento a aparação excessiva da ranilha.
Sola – Tem formato côncavo, exercendo importante função no processo de expansão e contração do casco. A expansão lateral da parede, incrementada pelos movimentos fisiológicos da sola, favorecem a absorção dos choques pelos talões e a boa expansão da ranilha. Um erro no casqueamento é deixar a sola plana. Se a sola é naturalmente plana, que também tende a ser rasa, os talões tendem a baixos, favorecendo as lesões de ranilha, nos talões e tendões.
Parede – Compreende a região dos talões, quartos e pinça. Exerce a função de apoio. Deve ser consistente, íntegra, de espessura em torno de 0,5cm. Normalmente, a região das pinças é mais espessa em relação à região dos quartos e dos talões. Estes devem ser bem afastados
( talões contraídos é um grave defeito ) e bem posicionados, em uma linha transversal relativa aos bulbos da ranilha, caso contrario, serão defeituosos – talões escorrigos. Um erro de casqueamento é aparar em excesso o comprimento da parede, aproximando o corte da linha branca, divisa entre sola e parede. Outro erro grosseiro é não balancear o casco.
Barra – É o prolongamento da parede do casco, exercendo importante função de sustentação da região dos talões e quartos. Uma barra bem desenvolvida evita a contração do casco e proporciona espaço para a boa expansão da ranilha. Um erro no casqueamento desta região é a sua aparação em excesso.
O equilíbrio da sustentação é mantido através do formato correto dos cascos e suas regiões, em associação ao balanceamento correto. Este balanceamento é avaliado nos eixos médio-lateral e antero-posterior. O desgaste igual na parede indica um bom balanceamento do casco. Outra referencia importante do equilíbrio da sustentação é a paridade entre os ângulos de inclinação das espáduas e o angulo de inclinação das quartelas. Quanto mais alto os talões, menor será o angulo de inclinação das quartelas, gerando o defeito de quartelas fincadas.
Um dos mais antigos ditados populares da equinocultura diz: “no foot, no horse”, “sem cascos, não há cavalo”.
Aprumos e estrutura – base da locomoção: Entende-se como aprumo o alinhamento do raio ósseo de cada membro, de perfil, de frente no caso dos membros anteriores e de perfil e de trás no caso dos membros posteriores. Os desvios de aprumos podem ser parciais ou totais, afetando negativamente a performance. Alguns exemplos:
Joelhos cambaios – As pinças de cascos desviam-se para fora e os joelhos para dentro. Ao passo, marcha ou trote, observa-se o ato de “remar” – rotação dos cascos para fora.
Jarretes fechados – As pinças de cascos desviam-se para fora e os jarretes para dentro. Ao passo, marcha ou trote observa-se uma rotação dos cascos para fora.
“Empiriquitar” – As pinças de cascos desviam-se para dentro. Ao passo, marcha ou trote, observa-se o ato de “ceifar” – rotação dos cascos para dentro.
Fechamento de base nos posteriores – Ao passo, marcha ou trote, os cascos aproximam-se, às vezes até se tocam. Observa-se uma rotação dos cascos para dentro.
Ajoelhado – Joelhos desviam-se para a frente. A flexão é prejudicada, resultando em deslocamentos menos elásticos dos membros.
Debruçado – A canela desvia-se para trás da linha vertical que desde do joelho ao casco. A flexão é prejudicada, resultando em deslocamentos menos elásticos dos membros
Quanto à estrutura, refere-se à constituição óssea, a boa definição de tendões e ligamentos, o desenvolvimento e distribuição da musculatura ao longo dos membros. As articulações devem ser bem definidas, sem excessos de volume nos casos de cavalos de esporte e de lazer. Ao contrario, as articulações ósseas são mais volumosos nos cavalos de tração, sendo mais compatíveis com a performance de andamentos de baixa velocidade. O comprimento dos ossos também guarda relação com a velocidade dos andamentos.
A musculatura deve ser bem desenvolvida e bem distribuída nas regiões das espáduas, ante-braços, braços, coxas, pernas, a fim de favorecer a potência dos deslocamentos.
Qualidade nos andamentos - O cavalo funcional deve apresentar, necessariamente, qualidade em seus andamentos naturais. Cada categoria, dependendo da finalidade de uso, tem um ou mais andamentos de maior importância. No cavalo de passeio, a marcha é o andamento mais importante, devendo ser, acima de tudo, cômoda, com maciez, sem atritos verticais, regular na cadencia e tipo de diagrama, de boa desenvoltura.
Docilidade – Este é um dos mais importantes atributos de qualquer cavalo, mas principalmente do cavalo de passeio, que geralmente é montado por pessoas sem experiência em equitação. Um cavalo dócil é um cavalo leal ao seu cavaleiro/amazonas, facilmente contido, montado e controlado pelos comandos principais da equitação. Um cavalo dócil proporciona prazer em ser manejado.
A má índole pode ser genética ou adquirida. No primeiro caso, o animal deve ser descartado da reprodução. No segundo caso, o manejo deve ser corrigido. Através do condicionamento mental apagam-se da memória as más experiências do passado. Através do treinamento adequado, consolidam-se as boas experiências.
Uma das principais causas da perda de docilidade nos cavalos do século XXI é o excesso de confinamento. Outras causas são o uso da violência e alguns defeitos específicos de conformação, tais como a deficiência de visão e a convexidade acentuada da região do perfil de chanfro ( inibe o ângulo de visão frontal ).
O temperamento é o reflexo das reações do cavalo diante de situações variadas. Quanto melhor o temperamento, mais funcional tende a ser o cavalo. Às vezes o cavalo não apresenta má índole, mas o temperamento é inquieto, nervoso, tornando o manejo difícil, em todas as etapas.
Resistência – Deve ser bem desenvolvida em cavalos de passeio, pois estes também são utilizados em cavalgadas de média e longa distância. A resistência tem base genética. Prova desta afirmativa é a maior resistência dos cavalos das raças Árabe e Bérbere, tendo sido esta ultima a principal base genética do Campolina original, juntamente com a raça Andaluz, também de boa resistência nata.
A resistência pode ser desenvolvida através de programas de condicionamento físico, metodicamente conduzidos. Em nada adianta um bom adestramento, treinamento e equitação se o cavalo não tem resistência para competir em determinadas provas.
A resistência é um reflexo do bom condicionamento das estruturas passivas e ativas. As primeiras incluem os cascos, ossos, tendões, ligamentos, músculos. As segundas incluem os pulmões e o coração.
Independente da função desempenhada, duas virtudes devem ser muito apreciadas no Campolina funcional, a inteligência e a treinabilidade. Ambas são correlacionadas. Sem inteligência bem desenvolvida, o cavalo não será facilmente treinado. A funcionalidade terá respostas positivas de acordo com o grau de treinabilidade. |